sábado, 7 de maio de 2016

ASCENSÃO: o horizonte é a alegria



“...depois voltaram a Jerusalém com grande alegria...” (Lc 24,52)

Para viver a alegria, exercitar-se na alegria: este deveria ser o slogan do(a) seguidor(a) de Jesus.
A alegria brota de um encontro com a Pessoa do Ressuscitado que suscita entusiasmo, nos seduz e nos faz vibrar com a “vida nova” que, nele, o Pai nos manifesta.
Na experiência da Ascensão, somos movidos e recuperar o ardor e a fascinação pela pessoa de Jesus; somos chamados a ser mensageiros da “conversão pastoral” feita de alegria, beleza, proximidade, encon-tro, ternura, amor e misericórdia. Esse é, pois, a marca que nos identifica como seguidores de Jesus, capaz de ativar e despertar a alegria, pois tudo o que nasce verdadeiramente de um encontro profundo e verda-deiro com Ele, gera uma alegria que ninguém pode tirar.
Precisamos nos converter à alegria de Deus que é autêntica paixão pelo ser humano.
 “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria” (Papa Francisco - Ev. Gaudium).
A alegria é um estado de ânimo central na experiência cristã. Nisto consiste a verdadeira alegria: em sentir que um grande mistério, o mistério do amor misericordioso de Deus, visita e plenifica nossa exis-tência pessoal e comunitária.
Temos de contagiar a alegria do Evangelho. É preciso remover obstáculos que impedem a alegria; é pre-ciso remover a pedra de nossos sepulcros e viver como ressuscitados.
Um sinal de identidade da alegria é o olhar profundo, amplo e largo da vida. Mesmo em meio à dor e ao sofrimento, não faltam o bom humor e a ternura. Quem é cristãmente alegre mantém-se sereno frente aos conflitos, integra melhor os acontecimentos, é feliz e faz felizes os outros.

Na antropologia, o vocábulo “alegria” faz referência a emoções, sentimentos e aspirações alcançadas. Vincula-se ao estado de plenitude humana, à criatividade, ao entusiasmo, ao prazer, ao contentamento, à satisfação, à sorte, ao regozijo, à felicidade. Fala-se da alegria pela ação, por estar ou viver juntos, a alegria de viver, a alegria da festa, a alegria nos triunfos e nas adversidades.
A alegria sempre indica que a vida expandiu, que ganhou terreno, que conseguiu uma vitória. Onde queira que haja alegria há criatividade; quanto mais rica é a criatividade, mais profunda é a alegria.
A alegria é incondicional. Não depende diretamente dos esforços pessoais nem da posse alguma de um bem temporal, mas do sentido global da pessoa. A alegria brota do interior, é coisa do coração; ela mana dentro, calada, com raízes profundas. É um dom do Espírito. “O fruto do Espírito é: amor, alegria” (Gal 5,22). Este dom nos faz filhos(as) de Deus, capazes de viver e vibrar diante de sua bondade e misericór-dia. Não é correto que os cristãos associem com tanta frequência a fé à dor, à renúncia, à mortificação, mas à alegria, à vida em plenitude.
Nossa alegria é Cristo ressuscitado. Ele é a causa de nossa alegria. Ele nos dá vida em plenitude.
A alegria está ligada à gratuidade; a alegria não é voluntarismo; não é objeto de decisão, como tampouco de decreto. Podemos diferenciar uma alegria ocasional e outra constitutiva ou um estado de ânimo intenso da pessoa; daí a importância de distinguir “estar alegre” de “ser alegre”. A alegria exige um clima favorável: um estado de espírito semelhante a um estado de graça.

Os Evangelhos nos revelam que Jesus vivia sereno, feliz ,alegre . As bem-aventuranças são o fiel reflexo de sua vida. Seu íntimo trato com o Pai, sua paixão pelo Reino, suas relações pessoais, suas amizades, seu modo de enfrentar a “hora”, sua aceitação da vontade do Pai, sua paixão e morte são vividas em paz.
Jesus nos revela que Deus é alegria em si mesmo e para nós. Disse-nos que a salvação definitiva é “entrar na alegria do seu Senhor” (Mt 25,21). Diante dos prodígios e milagres que vai realizando em sua vida pública, Jesus exulta de alegria no Espírito Santo.
A alegria cristã aninha-se e cresce na vivência do mistério pascal. A ressurreição de Jesus causou uma imensa alegria na comunidade dos discípulos. A alegria é contagiosa. Tem uma dimensão social e comu-nitária. Nós não estamos alegres porque Jesus está vivo mas porque nos fez partícipes de sua ressurreição, de sua nova vida. Assim nossa alegria é a alegria de Jesus.
Os Apóstolos, depois da Ascensão de Jesus, retornaram a Jerusalém; a certeza da promessa do envio do Espírito Santo os enchia de alegria; anunciavam com alegria e entusiasmo a ressurreição do Senhor.

“Sede alegres!”: isto é o que Deus deseja de nós, os cristãos. Uma alegria que é preciso manifestar, hoje, mediante uma sensibilidade e ternura humanas. A Igreja, por vocação e missão, deve ser alegre. Toda ela é profecia de alegria e esperança.
Quem vive a partir da alegria, vive a partir do essencial e sabe discernir o autêntico das aparências e o útil do supérfluo. A alegria mantém alta a utopia e não se cansa em sua irradiação. Seguimos o conselho agostiniano: “A felicidade consiste em tomar com alegria o que a vida nos dá, e deixar com a mesma alegria o que ela nos tira”.
Quem é transparente e coerente transmite alegria em seu falar e em seu agir. Costumamos dizer: “alegrar a casa”, “alegrar a cor”, alegrar o fogo”..., ou seja, dar-lhe vida.
Quem vive na alegria se sente sereno, livre, pensa positivamente, está próximo dos pobres, acolhe as adversidades,  integra suas contradições, ama sem pôr condições, louva, canta e bendiz sem cessar.
De fato, a alegria experimentada não nos põe na retaguarda nem nos acomoda; pelo contrário, ela nos pede que sejamos mais radicais no discernimento e nos compromissos. Está em jogo a glória de Deus e a dignidade de seus filhos e filhas

Os(as) grandes santos e santas, por viverem profundamente no amor de Deus, foram testemunhas da alegria. Este amor é o que os fez sair de si mesmos, reencontrar-se e entregar-se aos demais. E aqui está o peso do amor, o vigor da alegria.
A alegria, como sentimento expansivo, tende a impulsionar nossa pessoa para fora, nos move a fazer a travessia em direção aos outros. Ser alegre não significa ser impassível, insensível diante da injustiça e da violência, diante da pobreza e da exclusão. As virtudes que acompanham a alegria fazem que quem é alegre seja compassivo e misericordioso e trabalhe pela paz e pela justiça.
Sua vida alegre desmonta a hipocrisia, as ambições, os escândalos de corrupção e afãs de aparência...
Quando servimos os outros, recebemos acrescentada a alegria. “Dormia e sonhava que a vida era alegria. Despertei-me e vi que a vida era serviço. Pus-me a servir e descobri que o serviço era alegria” (Tagore).

Texto bíblico:  Lc 24,46-53

Na oração: A alegria é cultivada na ação e na oração; por sua vez, a oração desperta a alegria, este estado de
                    ânimo intenso e fora do normal, facilmente perceptível e que tem ressonância no modo de viver.
S. Inácio chama consolação a esse estado de ânimo, pois se trata de uma experiência nítida da Graça.
- Uma das expressões da alegria evangélica é viver em sintonia com esta Graça abundante e permitir que a vida seja uma contínua ação de graças.
- há tantos motivos pelos quais festejar, pelos quais manifestar a alegria do Evangelho; explicite-os.




terça-feira, 29 de dezembro de 2015

2016 com esperança

A Ano Novo de 2016, para os cristãos e todas as pessoas de boa vontade, é o Ano da Misericórdia. Se soubermos acolher esta proposta do Papa Francisco podemos ter esperança de grandes mudanças. O projeto da misericórdia já era a política de Mahatma Gandhi: “a não violência ativa”. O Espírito sopra onde quer.
Com a força da misericórdia poderemos colocar um limite poderoso ao mal, pois o poder da concórdia, do perdão, da ternura é um poder revolucionário. Jesus de Nazaré deixou-nos o imperativo de amar nossos inimigos. A força da alma é maior e mais benéfica que a força das armas.
Misericórdia não é sentimentalismo, nem fraqueza, muito menos pena ou dó. Pelo contrário, é um remédio eficaz contra a violência, a vingança, o ódio e a fome. Misericórdia é o amor de mãe, amor entranhado, uterino, visceral que trata o outro como irmão e desmonta o espírito de inimizade, de conflito, de discórdia.
O outro lado da misericórdia é a compaixão para com os pobres. O rico e ladrão Zaqueu, tocado pela misericórdia do olhar de Jesus, tornou-se misericordioso. Deu a metade dos seus bens aos pobres. Se os homens de poder tiverem misericórdia, terão razões para mudar o estilo, a mentalidade e a ideologia do consumismo depredador e saqueador que explora os pobres e destrói a natureza.
Pobreza e depredação do meio ambiente escreve o Papa Francisco, são as misérias humanas que só a misericórdia pode sanar, pois misericórdia é a onipotência de Deus para vencer o império do mal. Foi a misericórdia que moveu o coração de Tereza de Calcutá, de Albert Schweistzer, de Mandela, de Irmã Dulce, de Francisco de Assis, de Malala, de Giorgio La Pira etc.
Homens e mulheres misericordiosos mudaram a face da terra. A misericórdia era o respiro, o sangue, o DNA, a alma de Jesus de Nazaré. Até hoje multidões de cristãos, pela força da misericórdia, estão no meio e ao lado dos crucificados da história: os pobres, os migrantes, os doentes, os presos, os habitantes de rua. A misericórdia lhes inspirou o ideal missionário, a espiritualidade da compaixão, o espírito de solidariedade até ao martírio. Santas e Santos, cheios de misericórdia construíram hospitais, orfanatos, asilos, abrigos, casas de recuperação, comunidades terapêuticas e outras obras extraordinárias.
Políticos e partidos que se deixarem purificar e iluminar pela misericórdia terão chance, força e sabedoria para exorcizar a corrupção, promover o bem comum, elevar os pobres e colaborar na transformação da sociedade. Em 2016 teremos eleições, olimpíadas e principalmente a realização do Congresso Eucarístico Nacional em Belém do Pará. Sejamos, pois atletas da misericórdia, eleitores conscientes e adoradores de Jesus na Eucaristia que cheio de misericórdia multiplicou os pães, lavou os pés dos discípulos. A verdadeira religião é aquela que conjuga fé e amor fraterno de modo indissolúvel.
O tema do Dia de Paz deste ano, escolhido pelo Papa Francisco é este: “Vencer a indiferença para ter paz”. A cultura da indiferença é péssima, porque consiste em ignorar os outros, isolar-se, não se envolver com a realidade, em outras palavras, a indiferença o contrário da misericórdia.
Grande é a indiferença que temos em relação aos cuidados com o meio-ambiente, com as migrações, com a corrupção, com os pobres. Perdemos a capacidade de chorar e de nos deixar comover diante de tantos dramas, crueldades e barbarismos. Vencer a indiferença é ter um coração e mãos samaritanos. O bom samaritano é ícone perfeito da misericórdia. Abram-se as portas da justiça, do diálogo, do perdão para que o ano novo seja vivido com esperança na solução dos nossos problemas. As sete obras de misericórdia corporais e espirituais são um projeto de transformação social, comunitária e social.

Neste ano novo tenhamos o olhar do garimpeiro, que no meio da lama, encontra pedras preciosas. Longe de nós o olhar do urubu que só vê o lado ruim. O ser humano tem capacidade de se reerguer, de recomeçar, de reconstruir. Feliz Ano Novo.